Os shows sem tecnologia estão morrendo


9 de agosto de 2017



A música tem cor e forma, e a tecnologia vai te provar isso.

Você, assim como eu, quando criança sonhou em ser um astro, seja da música, do futebol, da ciência ou da arte. Sonhou em ser conhecido e reconhecido (e quando somos crianças nem sabemos por qual motivo exatamente), mas sonhamos em ter uma gigantesca base de fãs, dinheiro, sucesso, fama e todo o resto que isso trás. Talvez até se inscreveu num curso de música ou arte imaginando que apenas isso seria o suficiente para CHEGAR LÁ!

Bom, se você assim como eu cresceu, bem vindo a vida adulta, e hoje você percebeu que para se tornar grande, o dom nem sempre é o centro de tudo. Na composição da vida tudo soma, nada é por acaso e tudo precisa ser intencional. Na arte não é diferente, ser POP é muito mais do que aprender a fazer um belo solo de guitarra e derreter corações, ou aprender a marcar gols.

Imagine que nesta noite você vai a algum show ou evento, imaginou? Agora, se antecipe e visualize o local do evento antes de ele começar, e o que vem a sua mente? Inevitável, a primeira coisa é um ambiente de muita expectativa, repleta de muito som, a estrutura de palco, muitas caixas, muita potência, muito equipamento, cabos, fios e claro, muita gente.

É muito claro que o elemento principal e essencial para que um show aconteça é a estrutura de som bem montada e a banda redonda, pronta pro show, entre outros fatores que colaboram para qualquer bom evento. Mas os shows não estão mais iguais, os tempos são outros, bem como o público e a tecnologia, e é nisso que grandes artistas estão pensando. A verdade é que o som é apenas UM dos fatores numa atmosfera muito superior, e que nessa contagem talvez a importância dele se resuma bastante se comparado com o que vem a seguir: Me acompanhe…

Para um público mais desatento, assistir a grandes espetáculos de artistas como Roger Waters, Beyoncé, U2 e Katy Perry, talvez seja apenas pop art, mídia ou sensacionalismo no estilo mais americano possível. Sim, eu concordo, show business total. Porém, a mensagem passou apenas de cantada para também projetada. A necessidade de dar peso e sentido visual ao que se ouve é a nova regra, e não é de hoje. Mas, só hoje que essas tecnologias estão se tornando mais globalizadas e acessíveis… só que ainda vai muito além disso.A banda, os instrumentos, o solo, a impostação da voz, os gestos, as palavras, estão tudo conectados e entrelaçados a um emaranhado de cabos interligados e nada disso se dá ao acaso. É tudo de fato muito trabalhado e pensado, muito bem ensaiado. Se não fosse assim não nos marcaria e então não seria um espetáculo, não seria arte… E é justamente por ser arte que não percebemos a parte técnica, as vezes o cenário faz toda a diferença, mas ficamos emocionalmente tão envolvidos que nem ele percebemos, é quando o espetáculo chega ao seu ápice. Mas, onde isso começa e termina?

A Netflix disponibilizou a pouco tempo um documentário entitulado Abstract, onde no episódio 3 a renomada cenógrafa Es Devlin fala sobre o seu trabalho, de trazer sentido visual ao que um artista canta em suas músicas durante o show. Nesse documentário ela revela detalhes de como conectar emocionalmente público e artista através da interatividade. Afinal, algo que devemos considerar é que o ser humano é conquistado pelos olhos, e isso parece estar sendo cada vez mais explorado ao longo dos anos. Creio que precisa ser assim, afinal: é arte!

 

Es Devlin conta que um certo dia foi a um show de uma banda em Londres, algo que costumava fazer nas horas livres, dividindo o tempo entre teatro e música. Na visão de Es, as bandas eram diferentes mas se comportavam sempre iguais, na mesma disposição e silhueta, e isso a incomodava, pois parecia que tinha muito mais a ser explorado do que somente a banda e um pano de fundo com sua marca protagonizando sobre um palco. Aquilo parecia pobre demais.

Por alguma sorte, Es foi incumbida de montar um cenário para o show de despedida de uma banda local, e ela não perdeu a oportunidade de impressionar a quem estivesse presente. Es quebrou as regras quando distribui toda a banda em disposições diferentes da convencional, “enfiando” literalmente cada músico dentro de uma caixa preta com um pano grampeado na frente de cada caixa e uma luz traseira, empurrando apenas a sombra de cada músico pra platéia através daquele pano, enquanto a banda tocava. Esse cenário impactou profundamente os olhos até onde chegou essa idéia “desvairada” de Es Devlin. Daí em diante foi uma sucessão de projetos audaciosos e fora do comum, criando cenários profundamente dissonantes, ácidos e cativantes para óperas, shows, teatros e desfiles usando espelho, luz, filme, esculturas gigantescas e até chuva. Foi isso o que aconteceu assim que Es passou a ser convocada para dirigir e criar cenários de grandes artistas como Roger Waters, Lady Gaga, Beyoncé, U2, Adele, Muse e até desfiles de marcas como Louis Vuitton. Bom, a percepção de Es deve ter chamado a atenção de algumas pessoas, certo?

Ao usar o exemplo do trabalho de Es Devlin, estamos também conduzindo a visão do espectador para outra direção, aquela que em maioria passa despercebido, mas que se não existir pode fazer muita falta ou fazer toda a diferença. A produção artística, o cenário, o ambiente, como as coisas acontecem, as dinâmicas, os momentos, tudo é experiência, e não dá pra contar só com a composição musical para cumprir os propósitos de quem a criou, por melhor que seja a música.

Para ilustrar bem o que estou dizendo, vou exemplificar parte da minha experiência com a música Stranged, do Gun’N’Roses. Lembro que ouvia a música aleatoriamente com outras famosas da banda. Mas foi assistindo ao video clipe com produção cinematográfica que passei a tê-la como uma das obras primas do rock mundial, pois foi apenas no clipe, a imagem valorizando a música em que tudo fez sentido.

Sem dúvidas o artista é quem faz o show acontecer, mas no show tudo deve ser consideravelmente relevante. A regra de segurar uma guitarra, ter atitude, tocar bem e usar roupas conceituais com músicas e letras impactantes já não colam o suficiente. As luzes, as cores, as projeções e os telões por todos os lados, no alto do palco, no chão, por trás do público, tudo bem posicionado, tudo bem pensado, afim de atender emocionalmente quem faz parte do espetáculo, mas também em quem dá o play na TV ou no celular, de boa em casa no sofá. É mais do que claro que hoje os espetáculos demandam de uma abordagem tecnológica cada vez maior, e é tudo integrado. Uma arte apoiando a outra. A música está cada vez mais visual, palpável e material, para acontecer cada vez mais como queremos que ela aconteça, e principalmente, justificar a sua existência.

A tour The Wall de Roger Waters, é exemplo de que esse tipo de espetáculo demanda de um carregamento por vezes até maior de estruturas, projetores, cabos e computadores do que necessariamente de guitarras e amplificadores. Isso por que Roger Waters talvez tenha sacado que a mensagem visual seja tão importante quanto a mensagem cantada, e a informação precisa cumprir com o seu objetivo de todas as formas cabíveis. É praticamente uma estrutura cinematográfica no palco. Experimente assistir ao show oficial da tour de Roger Waters (também na Netflix) e um determinado momento você vai se deparar com o pêlo do braço arrepiado, ou aos mais amantes da banda, algumas gotas de lágrimas brotar em The Wall. Ou, assista ao show da tour do U2, e perceba a interação da banda em meio a toda aquela tecnologia de projeção, dizendo aos olhos justamente tudo o que a banda está gritando, em alguns momentos até contrapondo a própria música, tornando o show mais criativo e provocativo.

Vamos ampliar o campo de visão e observar a Broadway, com décadas de espetáculos icônicos, ou o Cirque Du Soleil, ou os shows marcantes de Las Vegas, isso pra sair do ambiente estritamente musical, sem sair totalmente dele.

A tecnologia não se trata de tentar convencer o público ou maquiar alguma deficiência do artista, muito pelo contrário, ela apenas reforça a informação, eliminando o abismo entre o que se quer dizer e o que é dito. Nesse sentido, enquanto o artista é absoluto em “tentar” dizer algo por ser mais poético, a tecnologia visual ampara em ficar mais do lado de tirar todas as dúvidas do público, de fato. Mas o contrário também é um risco, quando mau aplicada o espetáculo pode virar algo brega e todo o sentido pode ir embora.

Estamos na era pós novidade dos sampler’s e as tecnologias amadurecidas estão aí para somar. Ela já provou que ajuda a dar voz democrática a quem bem utilizar dos seus recursos, mas também ajuda a amplificar quem já está no topo dos streaming’s.

No Brasil, quem está sacando e se aproveitando dessa onda é o segmento sertanejo, que explora muito bem todos os recursos do pop moderno para atrair e consolidar o público através da experiência visual. Talvez seja a música do momento, onde se tem muito mais receita e investimento, Talvez. Mas vale ressaltar que a tendência conquistou também as igrejas evangélicas contemporâneas, onde encontramos ambientes mais escuros, contando com sistemas de iluminação, telões e muita tecnologia implantada até de transmissão ao vivo, para garantir o melhor funcionamento de cultos e reuniões, afim de apoiar visualmente a mensagem transmitida.

Voltando ao exercício da imaginação, pense novamente em algum espetáculo que você tenha gostado de ter assistido, com todos esses recursos citados até agora. Agora, elimine todos os elementos visuais, mas mantenha no foco da imaginação apenas o cantor ou a banda… soa cinza e opaco, não é mesmo? É claro que o talento não vai embora, mas o peso das imagens e das possíveis legendas nos telões com certeza deixaram um vácuo enorme no que de fato representa uma experiência mais profunda do show, isso por que já nos acostumamos a tais elementos. É olhar e perceber que as tecnologias complementares estão borbulhantes em tudo quando o assunto é uma bela apresentação de algum artista, e isso está para um bom show assim como o celular está para o nosso dia-a-dia. Pode até parecer exagero, mas não é! Imaginar um show de nomes como Zezé Di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo ou algum grande sertanejo sem ao menos um telão de projeção ao fundo, é sinal notório de fracasso ou de decadência, concorda? e se não tiver ao menos uma projeção, vai contar no mínimo com um cenário e um figurino muito bem produzido.

Uma coisa é fato, a multidão existe, o público está aí para ser alcançado, seja pelos canais online ou seja pela criatividade ao vivo, mas não podemos ignorar que (mais do que nunca) a arte está tecnologicamente integrada, e isso cada músico ou artista precisa aprender a dominar, desde o seu instrumento até sacar como funciona uma câmera, como funciona a edição, como se comporta a luz, as projeções, para garantir que o show de verdade aconteça.

Acredite quando eu digo que daqui pra frente os espetáculos serão cada vez mais impactantes no aspecto de surpresa e criatividade interativa e interligadas, é exatamente isso o que o público espera. E você, não espere menos do que isso, e mais importante, se você trabalha com música ou som, seja em que esfera for, busque não fazer mais nada menos do que isso.

Mas não pense na tecnologia pela tecnologia, busque dar sentido a ela, pois só assim fará algum sentido.

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